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Consumo de Álcool e suas consequências: Um panorama através da pandemia do Covid-19

No dia 20 de fevereiro comemorou-se o dia nacional do combate às drogas e ao alcoolismo, como iniciativa do Ministério da Saúde. Em tempos de pandemia, crise econômica, aumento da desigualdade social, dentre muitos outros agravos devido à pandemia, torna-se importante a discussão acerca do abuso de álcool e drogas como problema de saúde pública.

A dependência de um indivíduo a bebidas alcoólicas é conhecida como alcoolismo, sendo esta considerada doença pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020). O consumo descontrolado e contínuo de bebidas alcoólicas pode levar a sérias consequências à saúde, comprometendo o funcionamento do organismo e a saúde do indivíduo, o que pode causar uma sobrecarga ao SUS, além de graves consequências sociais.

Durante o início da pandemia, no ano de 2020, diversos países foram afetados com a divulgação de notícias falsas, relacionando a ingestão de bebidas alcoólicas com a proteção contra o vírus Sars-Covid. Nos países Costa Rica, República Dominicana e Irã, aproximadamente 700 pessoas morreram devido ao consumo de álcool de origem desconhecida, que possuía metanol em sua composição (Garcia e Sanchez, 2020). 

Tendo em vista o atual momento de incerteza, desinformação e de um possível aumento de consumo de álcool devido ao isolamento social na pandemia, uma análise da variação do consumo neste período se faz necessária. Para isto, a presente análise utiliza duas bases de dados contendo incidências de internações por doenças provenientes do consumo de álcool. Foram usadas duas categorias de CID (Classificação Internacional de Doenças), avaliando-se o comportamento das doenças ao longo do ano de 2020 e durante os períodos de 2015 a 2020. As bases de dados foram retiradas do site do DATASUS, serviço de disponibilização de dados do Ministério da Saúde, e são: Doença Alcoólica do Fígado e Transtornos Mentais e Comportamentais. 

Foi utilizado, para padronizar as internações por estado, um cálculo da taxa de incidências por 100 mil habitantes. A taxa foi calculada a partir da quantidade populacional de cada estado, utilizando-se a média de população para os anos observados.

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Gráfico 1 - Transtornos Mentais e Comportamentais - Ranking de estados (2015 - 2020). Fonte: IBGE, DATASUS

São observados, no gráfico 1, os estados que possuem maior taxa de incidência de Transtornos Mentais e Comportamentais entre 2015 e 2020. Nota-se uma tendência de decrescimento das incidências nos períodos anteriores a 2020 para os estados do Rio Grande do Sul e Paraná. Foram também observadas menores incidências durante o ano de 2020 em todos os estados apresentados neste mesmo grupo, em relação ao ano anterior (2019), e incidências consideravelmente menores em Minas Gerais para todos os anos avaliados em relação aos demais estados.

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Gráfico 2 - Doença Alcoólica do Fígado - Ranking de estados (2015 - 2020). Fonte: IBGE, DATASUS

No gráfico 2, temos os cinco estados com maiores incidências de Doença Alcoólica do Fígado, entre os anos de 2015 e 2020. Quando comparado com o gráfico anterior, é evidente um maior número de internações nos estados para os anos observados. Para o ano de 2020, foram observadas menores incidências em relação aos anos anteriores, para os estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Estados como Paraná e Mato Grosso do Sul possuem incidências maiores em determinados anos (em especial 2016, 2017 e 2018), em comparação com 2020. É observado um comportamento mais oscilatório no estado do Mato Grosso do Sul e decrescente para o Distrito Federal, desde 2016. 

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Gráfico 3 - Transtornos Mentais e Comportamentais (2020) - Incidência Mensal. Fonte: IBGE, DATASUS

O gráfico mensal de incidências de Transtornos Mentais e Comportamentais causados pela ingestão de álcool (gráfico 3) nos possibilita fazer observações sazonais, para os estados com maiores incidências no país, acerca das taxas de incidência durante o ano. 

São evidenciadas algumas oscilações no primeiro trimestre para a maioria dos estados, destacando-se uma diminuição de março para abril nos estados de Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Para este mesmo período, foi observada uma tendência de “achatamento” para o estado do Distrito Federal, seguido de maior queda até o final do primeiro semestre. Observou-se estas tendências para o estado do Paraná, nos períodos de abril-maio, também apresentando queda posterior.

Para o segundo semestre, em junho, tem-se um início de possível queda para os estados do Distrito Federal e Paraná, seguidos de oscilações que se destacam. Santa Catarina e Minas Gerais apresentam leves oscilações e tendências de queda em novembro e dezembro e o Rio Grande do Sul se destaca com o maior pico observado em outubro, seguindo uma queda posteriormente.

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Gráfico 4 - Doença Alcoólica do Fígado (2020) - Incidência Mensal Fonte: IBGE, DATASUS

O gráfico 4 demonstra a taxa de incidência mensal por 100 mil habitantes para os estados com maiores internações (mencionados no gráfico 2) para Doença Alcoólica do Fígado, durante o ano de 2020. É evidente uma forte oscilação em todos os estados analisados, com fortes quedas em abril e junho e picos no final do primeiro semestre do ano para os estados de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. O estado do Distrito Federal se apresenta com tendências de achatamento seguidas de pico no mês de junho.

Ao observar o segundo semestre do ano, é evidente uma forte queda para o estado do Mato Grosso do Sul até dezembro, quando comparado ao primeiro semestre. Também é relevante observar maiores valores para o Distrito Federal e menores valores para Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, no último trimestre de 2020.

Diagnósticos como Doença Alcoólica do Fígado não apresentam consequências a curto prazo após o consumo exagerado de bebidas alcoólicas. Esta característica da doença pode levar o leitor a perceber determinadas diminuições e oscilações observadas no gráfico 4. Em dezembro de 2020, para os estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, foram observadas menores incidências comparadas a janeiro de 2020. Em contrapartida, para os estados do Distrito Federal e Paraná, o ano de 2020 foi finalizado com incidências próximas aos valores observados em janeiro.

Ressalta-se que períodos do ano como janeiro, fevereiro e dezembro possuem características sociais atípicas dos demais meses, contudo, não é fidedigno afirmar a relação de tal atipicidade com variações sazonais apresentadas nas análises, se fazendo importante análises mais robustas para tal observância.

DISCUSSÕES 

Durante o estudo foi necessário restringir a quantidade de CIDs, mas que não necessariamente retrata o percentual da população brasileira que sofre de efeitos do consumo de álcool acima do recomendado. Diversas doenças diagnosticadas como cirrose, esteatose hepática, insuficiência cardíaca e câncer de estômago podem ter como principal fator de risco o consumo de álcool.

Deve ser destacada a importância do cuidado ao fazer observações acerca de análises que abordam internações relacionadas ao consumo de álcool, em especial durante o período da pandemia do Covid-19, pois pode-se muitas vezes levar o leitor a uma conclusão precoce sobre possíveis influências das mudanças de hábitos sociais oriundas da pandemia no ano de 2020 e seus impactos nas incidências das doenças. 

Outra observação a ser feita acerca de doenças crônicas não transmissíveis e fatores de risco que levam a casos graves de Covid-19 (como alcoolismo e tabagismo) é a diminuição da prevenção durante a pandemia. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), é necessário prestar atenção em diagnósticos antecipados, prevenção e controle de doenças crônicas não transmissíveis.

Oscilações, achatamentos e quedas das incidências não nos levam a afirmar tais influências, pois é necessário notar a grande diversidade de variáveis que são necessárias para que se avalie sob esta perspectiva, tendo em vista que, indivíduos internados com Transtornos Mentais e Comportamentais por consumo de álcool e/ou Doença Alcoólica do Fígado, não necessariamente fazem a ingestão de bebidas alcoólicas em locais que sofrem fechamentos por conta de restrições oriundas da quarentena durante a pandemia do Covid-19, como bares e restaurantes. 

As menores taxas de incidência de 2020, comparados aos anos anteriores (2015 a 2019), observadas nos gráficos 1 e 2, também não confirmam qualquer influência oriunda da pandemia de Covid-19, em especial para os estados que já vinham apresentando quedas nas incidências de ambas as doenças apresentadas na análise. Contudo, é importante levar as observações mencionadas para futuras análises.

Vale ressaltar a importância da continuidade de análises para as doenças mencionadas no artigo, considerando o comportamento dos meses e anos seguintes. Para que se faça uma avaliação aprofundada acerca das influências de medidas restritivas, precisam ser considerados diversos fatores socioeconômicos, como também o comportamento dos indivíduos em relação ao excesso de consumo de bebidas alcoólicas, aos hábitos comportamentais durante a pandemia de Covid-19 e possíveis comorbidades e predisposições que influenciem no agravamento destas doenças.

Referências

Brasil, Ministério da Saúde. Banco de dados do Sistema Único de Saúde-DATASUS, 2020. 

Confederação Nacional das Cooperativas Médicas - Portal Nacional de Saúde da UNIMED, 2020. 

GARCIA, Leila Posenato; SANCHEZ, Zila M. Consumo de álcool durante a pandemia da COVID-19: uma reflexão necessária para o enfrentamento da situação. Cadernos de Saúde Pública, v. 36, p. e00124520, 2020.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020.

Organização Pan-Americana de Saúde. Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças para Oncologia. OPAS/OMS, 2020.