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Os Danos Silenciosos da COVID-19

Tratamentos Oncológicos

Com o avanço da pandemia em 2020, a saturação do Sistema Único de Saúde (SUS) era inevitável. Em contrapartida, as doenças oncológicas representaram em alguns anos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a segunda maior causa de óbitos no mundo.

O que aconteceu com os pacientes oncológicos durante a pandemia? Como a pandemia da COVID-19 impactou os tratamentos oncológicos no Brasil? Será que teremos grandes impactos a longo prazo devido a possíveis deficiências nos tratamentos oncológicos?

Objetivos

Com diversas áreas sofrendo impactos negativos durante a pandemia da COVID-19, surgiu a curiosidade de verificar os números das doenças oncológicas. Então vamos comparar os números de tratamentos oncológicos de 2020 com anos anteriores. Tentar identificar os grupos mais afetados em tratamentos oncológicos durante a pandemia da COVID-19. Dessa forma fazendo uma análise geral baseada em dados públicos dos pacientes oncológicos do Sistema Único de Saúde mais conhecido como SUS. Aí logo vem uma pergunta: Onde vamos encontrar dados para fazer essa análise?

Fontes de Dados

Falando de SUS, logo pensamos em DATASUS, que é o seu departamento de informática. O DATASUS, consolida os dados de alguns de seus sistemas para apresentar no PAINEL-ONCOLOGIA - BRASIL. A origem dos dados do painel são os sistemas:

  • Sistema de Informação Ambulatorial (SIA): Tem informações das unidades ambulatoriais, a partir do Boletim de Produção Ambulatorial (BPA) e da Autorização de Procedimento de Alta Complexidade (APAC).

  • Sistema de Informação Hospitalar (SIH):  Tem informações das unidades hospitalares, coletando dados de todos os atendimentos provenientes de internações hospitalares que foram financiadas pelo SUS.

  • Sistema de Informações de Câncer (SISCAN): Tem informações relacionadas ao tratamento de doenças oncológicas vinculadas ao SUS.

Os números que vamos analisar do Painel de Oncologia estão com data de atualização dos dados: 15/01/2021.

Redução do Tratamento Oncológico

Ao fazer uma análise bruta dos dados, de uma forma geral já podemos perceber uma grande redução do número de diagnósticos. 50% foi a redução no número de diagnósticos de doenças oncológicas, comparando os anos de 2019 e 2020. Mas aí você pode se perguntar: A quantidade de pessoas com câncer diminuiu, não devemos ficar felizes?

Se fizer uma análise desde 2013, vai perceber que o número de diagnósticos estão em uma crescente. Uma queda brusca com essa, tem outros significados e não uma involução da doença. Então, vamos fazer algumas análise mais detalhadas para entender o que está ocorrendo.

Redução por UF de Residência

Houve queda em todos os estados? Sim! Se comparado ao ano de 2019, durante a pandemia tivemos uma queda por volta de 50% em muitas UFs, em alguns casos queda bem mais acentuada.

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Se formos no detalhe, o estado que apresentou a menor redução foi Roraima com 15%, e o maior Paraíba com 68%. Ainda temos alguns estados com o menor número de diagnósticos desde 2013, como, Acre, Amapá. Ambos da região Norte, a região que mais sofreu com a pandemia da COVID-19.

Redução por Faixa Etária

Observando os diagnósticos por idades, é notável, que as faixas representadas pelos grupos de risco (pessoas mais vulneráveis a complicações da COVID-19), foram as mais afetadas. 

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As pessoas com faixa etária acima de 64 anos, tiveram uma redução de mais de 50% no número de diagnósticos. Essa redução é ainda maior para pessoas acima dos 74 anos. Vale lembrar, que as doenças oncológicas acometem mais as pessoas com mais idade.

Redução por Sexo

Na comparação do sexo temos um equilíbrio na redução do número de diagnósticos durante a pandemia em 2020.

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Esse equilíbrio não quer dizer uma coisa boa. Apenas mostra que a redução foi proporcional, acompanhando a redução geral dos diagnósticos.

Redução dos Tratamentos de QUIMIO/RADIO

Os números de tratamentos, tanto de Quimioterapia, quanto de Radioterapia, formam os menores desde 2013. Vale ressaltar, que esses são os principais tratamentos de doenças oncológicas.

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A redução do tratamento de Radioterapia chega a quase 70%. O que sugere abandono do tratamento por parte dos pacientes, ou uma não prescrição por parte dos médicos. É um tratamento importante, que quando não se tem a cura, pode melhorar e muito a qualidade de vida do paciente segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), órgão auxiliar do Ministério da Saúde.

Redução do Tempo de Tratamento 

Outro fator muito importante para o tratamento do câncer, é o tempo de início do tratamento. O tempo de tratamento teve uma diminuição mais acentuada, nos tratamentos iniciados de longo prazo, principalmente superior a 60 dias. 

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Se olhar para os tratamentos acima de 30 dias, temos o menor número da série histórica desde 2013. Essa diminuição no tempo de início do tratamento deveria ser uma coisa boa, pois a lei (Lei 12.732, de 2012)  instituiu prazo máximo de 60 dias para início do tratamento. Mas se analisar os tratamentos até 60 dias, também tiveram redução próxima a 50%.

Conclusões

Olhando para todos esses dados expostos pelo Painel de Oncologia Brasil, é mais um sinal de como o sistema de saúde brasileiro foi negligenciado durante a pandemia. 

Os reflexos na diminuição da quantidade de diagnósticos, nos tratamentos de Radioterapia e Quimioterapia, serão refletidos em uma possível diminuição da expectativa de vida dos pacientes oncológicos impactados durante a pandemia. 

As doenças oncológicas na sua grande maioria são silenciosas. A falta do diagnóstico e tratamento precoce que não ocorreram durante a pandemia podem custar a vida para muitas pessoas.

A falta de políticas públicas claras contribuiu de forma substancial para a falta de tratamento oncológico e outros tipos de doenças durante a pandemia.

Referências